tenho um melro de bico amarelo que me visita todos os dias. quando era pequenina (adoro dizer pequenina, em viana também se diz pequeninha) lembro me do meu avô me sentar ao seu colo e, em tom muito dramático, declamar o magnífico poema do guerra junqueiro. como bom estalinista que era perdi-se nas subtilezas da coisa: para ele o melro era a prova-literária que os padres eram a pior espécie à face da terra, o padre-mau que aprisionou os melros inocentes. os anos passaram e sempre me acompanhou este poema. li-o e reli-o vezes sem conta até que um dia o efeito que o poema produzia no meu avô foi em mim o oposto: foi pela poesia que o divino entrou na minha vida. e foi assim que o místico e panteísta guerra junqueiro despertou o meu lado mais espiritual.
recomendo a leitura do poema. é lindo. aqui em baixo está o link. a edição do meu avô vinha com uma nota final onde referia que este poema era baseado em factos reais da natureza . pesquisei na internet mas não encontrei nada que me confirme. eu continuo a acreditar que os melros são os pássaros mais nobres e belos que conheço e que o melro que me visita todos os dias é o meu avô a olhar por mim.
O MELRO – Do livro a Velhice do Padre Eterno Autor – Guerra Junqueiro
